SuperTRI| Ser feliz é tudo o que você quer ?

Vivemos seduzidos, hipnotizados pela ideia do sucesso. Para muita gente parece que existir na felicidade de fato é quando se tem dinheiro, fama e – por que não? – poder. Mas engana-se demais quem pensa que o sucesso, genuína consequência de um talento pessoal, traga com ele a felicidade. E quem mostra isso com propriedade é um dos maiores psicanalistas do Brasil. “O sucesso o destaca da multidão, gera angústia e a solidão de ser alguém singular”, diz Jorge Forbes. Imagine uma imensa loja de brinquedos. Coloque uma bela criança no meio dela e diga para ela escolher dentre tantos brinquedos apenas um, ou até dois, quem sabe. Depois de alguns minutos não será difícil vê-la sentada no chão, chorando, angustiada por não saber o que escolher.

Sem padrões rígidos a serem seguidos, muito menos uma receita de vida boa a ser repetida, nosso tempo nos coloca como criança numa imensa loja de brinquedos. Colocar o poder de escolha pela vida, quais caminhos tomar, nos coloca todos os dias frente aos nossos desejos. Quem tem coragem de assumir essa angústia e deixar que escolham por você? Acaba que a vida é encarada como ela é: um contrato sem garantias. Quem abraça a responsabilidade de ir em busca dos próprios desejos, e ser o que será, é pessoa rara, dona de si. Ainda há muitos que preferem abraçar o que lhes acena uma garantia, ainda que falsa. “É o que diferencia a pessoa singular das ‘genéricas’”.
Para o psicanalista Jorge Forbes, dono das ideias acima, o que caracteriza um vencedor, na vida, é justamente aquele que não segue os padrões, mas vai em busca de se arriscar para exercer o próprio talento. Pobre de quem pensa que as conquistas que valem são aquelas por mérito. “Ledo engano, no entanto, pensar que a conquista por mérito é mais valiosa que a conquista pelo talento. Aqueles que assim pensam, não sabem o custo que uma pessoa paga para se responsabilizar pelo próprio talento. A primeira das faturas é a da exclusão do
grupo, pois o talentoso é bicho raro e acaba não tendo lugar na turma”, ressalta Forbes.
A psicanálise, segundo Forbes, sabe que “o sofrimento por uma qualidade pode ser maior que aquele originado por um defeito, pois o defeito é solidário e a qualidade é solitária”.
Introdutor da psicanálise de Jacques Lacan no Brasil, de quem foi aluno na França entre 1976 e 1981, Forbes afirma que nossa preferência por “receitas prontas” para se ter alegria deriva justamente da ideia errônea de que felicidade é bem que se mereça. A intrincada e profunda análise lacaniana nos põe cara a cara com aquilo que nos faz: o desejo. E nessa “dangerosíssima” viagem do homem a si mesmo muitos recuam e preferem ir em busca de se confortar com alguém ou um grupo que pense por eles. E aí se incluem também as religiões e, moda da modas, os  livros de autoajuda. “Em síntese, o ser humano ‘desbussolado’ dos nossos tempos tem à sua frente dois caminhos: o ‘reacionário’
e o que chamo de ‘caminho de vanguarda’. Claro que a maior parte prefere o reacionário. Por que? Justamente porque seguir o caminho de vanguarda angustia logo de cara. Esta escolha leva você a ter que inventar seu próprio caminho e se responsabilizar por ele. Noventa e nove por cento das pessoas não querem isso. Elas preferem se ‘religar’, seja por respostas prontas dos livros de autoajuda ou pela escolha de um caminho onde não há dúvidas”, atesta Forbes. Primeiro diretor-geral da Escola Brasileira de Psicanálise, entidade que ajudou a criar, Forbes preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana – IPLA e o Projeto Análise (www.projetoanalise.com.br), além de dirigir a Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano, na USP, em São Paulo.

“FELICIDADE NÃO É BEM QUE SE MEREÇA”
Há muitos mecanismos criados em nossa sociedade que levam à falsa ideia de que, para sermos felizes, é preciso antes merecer. E aquilo que chega, fruto do puro acaso, e nos faz felizes? “O mundo caminha para um outro tipo de alegria, que é aquela que não vem do merecimento, já que a alegria vendável substitui com muita propriedade este tipo de alegria. Por outro lado, há vários autores onde eu quero me incluir modestamente, porque a companhia é bela, como Lacan e Giorgio Agamben, que defendem que felicidade não é bem que se mereça. O Agamben tem uma frase que acho sensacional. Ele diz: ‘É uma desgraça sermos amados por uma mulher porque a merecemos!’ E como é chata a felicidade que é prêmio ou recompensa por um trabalho bem feito”, provoca Forbes. E em tudo, em todos os “papéis” que representamos no dia a dia, a mudança grita por novos olhares e soluções. “Pensem nas suas casas. Alguém ainda conhece uma família que jante impreterivelmente às 19h30, que o pai se sente de terno e cara circunspecta à cabeceira, que os filhos se distribuam na mesma ordem, que a conversa seja pautada por importâncias comedidas da vida de cada um? Difícil, não é? O mesmo modelo vale para o professor, na escola; e também vale para o chefe, na empresa, ou na política”, acrescenta.

LIDERANÇA QUE APAIXONA
O chefe, aquela figura funesta e temida, morreu. Pelo menos nas empresas mais bem sucedidas. Hoje, nas corporações, Forbes dá mil exemplos. “Não existe mais a liderança vertical, de cima para baixo, em um eterno dar notas de aprovação, ou de reprovação. Por mais que o modelo ‘gerentão’ ainda possa seduzir, ele é velho, é tosco”, diz. “Na pós-modernidade o líder é o apaixonado que inspira, mais que controla; que entusiasma, mais que disciplina.”

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