José Roberto Guimarães

Um menino e uma bola. Parece até que um não existe sem o outro. E a primeira lembrança foi com o futebol. O pequeno José Roberto Guimarães chutava a pequena esfera cheia de ar que lhe deram de presente pelos corredores da casa e alegrava os pais, felizes da vida.
Hoje, diante do mundo, quando vibra, grita, chora e pena na beirada da quadra dando instruções às suas meninas, veem ali, naqueles olhos apertados de emoção um pouco do menino lá dos corredores da pequena casa no interior de São Paulo. E hoje quem o vê e fica feliz da vida somos nós, um país inteiro!

Pra começo de conversa ele é o único tricampeão olímpico brasileiro. Está bom? A primeira vez foi como técnico da seleção masculina de vôlei nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 e, mais tarde, com a seleção feminina em Pequim 2008 e Londres 2012. Como se não bastasse, é o único técnico no mundo campeão olímpico com seleções de ambos os sexos.

Pronto. A matéria poderia parar aí nesse primeiro parágrafo e você, leitor, inteligente que é,  já entenderia que a vida de José Roberto Lages Guimarães, o nosso querido Zé Roberto, se fez e se faz em cima de muito trabalho, dedicação e carinho em representar o Brasil como treinador. Não há vitória sem dedicação. Se isso serve para a vida, no esporte, que é metáfora da vida, é onde o exemplo se clarifica.

Todos esses títulos, e o fato de ser considerado legendário, respeitado no mundo todo não parece deslumbrar Zé Roberto. Há sempre uma equipe convocada por ele, sintonizada com o próximo desafio. É o que move o time. Crescem como equipe para se consagrarem como indivíduos, atrás dos milímetros a mais em um salto, de um lapso a mais de impacto na cortada, uma ponta de dedinho a mais no bloqueio salvador. É dessas pequeninas distâncias, conquistadas dia a dia em intensos treinos que fazem de nossas meninas do vôlei gigantes em quadra. Dentro das gotas a mais de suor está a busca por algo além de uma simples medalha. Cada jogo é o jogo de uma vida, com milhões de brasileiros unidos, torcendo com fé.
A improvável vitória suada depois de um jogo inteiro de dificuldades conta para nós, torcedores, um pouco da história da vida de cada um, feita de sangue, suor e lágrimas na maioria das vezes.

E ele, o Zé Roberto, já tão íntimo da gente em momentos memoráveis, poderia muito bem, se quisesse, ter se aposentado no auge, depois de tudo o que conquistou. Mas não, nem pensar!
Zé e a meninas do nosso vôlei estão prestes a enfrentar o seu maior desafio: ir em busca do tricampeonato a ser conquistado em casa, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Nascido na cidade de Quintana (SP), começou sua carreira no mundo do voleibol nos anos 70, quando atuou como jogador entre os anos de 1969 e 1981. Defendeu vários times brasileiros e também atuou no voleibol Italiano. Além disso, defendeu a Seleção Brasileira de Voleibol Masculino em Montreal 1976. Depois de atuar como jogador durante anos, José Roberto iniciou sua carreira como assistente técnico de Bebeto de Freitas em 1988. Nos anos 90 começou a treinar equipes nacionais femininas. Em 1992 José Roberto começou a treinar equipes nacionais masculinas. Daí surgiu a oportunidade de comandar a Seleção Brasileira de Voleibol Masculino, onde conquistou os resultados mais expressivos do voleibol masculino brasileiro, como a medalha de ouro na Olimpíadas de Barcelona em 1992, dentre outros títulos de Liga Mundial, Sul-americano e Copa do Mundo de Voleibol. José Roberto permaneceu na Seleção Masculina até a Olimpíada de Atlanta em 1996. Depois disso deixou de trabalhar com o voleibol e virou gerente de futebol no Corinthians (já pensou?).

Em 2000 José Roberto volta a ser técnico de voleibol pela equipe feminina do Osasco, onde conquistou vários títulos estaduais, nacionais e internacionais, além de três títulos da Superliga.

No ano de 2003, ele assumiu a Seleção Brasileira de Voleibol Feminino, promovendo uma renovação. Conquistou inúmeros títulos como Grand Prix, Sul-americano, Montreux Volley Masters e Copa dos Campeões. Mas também acumulou alguns fracassos, como o da Olimpíadas de Atenas de 2004, Campeonato Mundial de Voleibol de 2006 e Jogos Pan-americanos de 2007. Em 2008, José Roberto conquista o heptacampeonato do Grand Prix e a primeira medalha de ouro olímpica do voleibol feminino brasileiro.

Uma partida de vôlei, para quem assiste, é muito mais do que dois times tentando jogar a bola no chão do seu adversário. Gostamos tanto, e torcemos e choramos, porque é como a vida: feita de derrotas, mas principalmente de grandes viradas.

No intervalo de um dia de intensos treinamentos, Zé Roberto parou um pouquinho para conversar com a Trifatto. Nessa conversa breve, porque o tempo urge (e as Olimpíadas não são brincadeira, meu filho!) ele conta que nem em seus mais loucos sonhos de infância imaginou ter chegado onde chegou. “Foi a paixão, o amor, a dedicação ao esporte”, revela. Coisas de um menino de ouro, que cuida de meninas de ouro.

TRIFATTO – Como estão os preparativos para as Olimpíadas? Já tem um time ideal montado em sua cabeça?

José Roberto – A preparação acontece nesse momento. Estamos na primeira fase de preparação, que antecede o Grand Prix, e temos 19 jogadoras no elenco. Devemos permanecer assim até o começo do Grand Prix. 

TRIFATTO – O desempenho nos amistosos e no Grand Prix serão uteis para você escolher e fazer os últimos ajustes?

José Roberto – O Grand Prix é uma competição importante que antecede os Jogos Olímpicos. Nela nós vamos encontrar as melhores equipes do mundo que estarão nos Jogos do Rio. Certamente será um período de maior ajuste, pois vamos ter um parâmetro de como essas equipes vão estar se preparando e como elas estarão jogando taticamente e tecnicamente.

TRIFATTO – Por conta da equipe estar buscando um tricampeonato olímpico e pelo fato de ser em casa, é preciso intensificar o trabalho psicológico com as atletas?

José Roberto – Temos feito isso ao longo dos anos e a partir do momento que soubemos que o Rio iria sediar os Jogos Olímpicos já tivemos uma preocupação maior com a parte psicológica em função da pressão que é jogar em casa diante da nossa torcida, sem contar o fato do time ser o atual bicampeão olímpico. Acho que esse trabalho vai nos ajudar muito nos momentos mais críticos que vamos enfrentar nos Jogos Olímpicos.

TRIFATTO – A pressão por ser em casa é diferente? Positiva ou negativa?

José Roberto – É diferente e muda completamente o enfoque. O fato de jogar no ginásio que conhecemos e diante da nossa torcida é positivo. É lógico que também somos exigentes conosco mesmos nos resultados. Como diria o Ayrton Senna “Nada melhor do que ganhar em casa”.

TRIFATTO – Em sua vida dedicada ao esporte, esperava chegar tão longe?

José Roberto – Nem no melhor sonho imaginava isso. Acho que tudo aconteceu pela paixão, amor e dedicação que tive durante todos os meus anos militando no voleibol.

TRIFATTO – Como vê o futuro do vôlei no Brasil? É promissor?

José Roberto – Acho que ele é promissor. Nós temos algumas boas gerações nas categorias de base que visam essa continuidade do Brasil entre as melhores equipes do mundo. Temos uma carência em relação ao material humano que conseguimos superar com a nossa escola brasileira de vôlei muito baseada na técnica dos jogadores.

TRIFATTO – Qual o segredo, na sua opinião, para que o vôlei brasileiro, feminino e masculino, venha se mantendo tão bem há tanto tempo?

José Roberto – Acho que é a dedicação e abnegação de algumas pessoas que amam o esporte e se dedicam plenamente em fazer o melhor possível. Além disso, a constante preocupação com o trabalho de base para que o voleibol permaneça vivo e muito forte e com uma dedicação extrema na formação de novos valores.

TRIFATTO – Esse modelo de trabalho e gestão aplicados ao vôlei, acredita que também seja aplicável às outras modalidades?

José Roberto – Acredito que sim. Essa maneira de ver o esporte como uma empresa e funcionar como tal também é importante. O vôlei tem tido sucesso pelo investimento nas categorias de base e isso tem sido uma marca muito importante desde o início do trabalho.

TRIFATTO – O que representam para você as Olimpíadas no Brasil?

José Roberto –  Acho que é um marco de importância. São os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul e vamos ter a oportunidade de mostrar para o mundo toda a nossa cultura, maneira de ser e tudo que o Brasil tem de melhor. Acredito que o Brasil vai conseguir fazer uma das melhores Olimpíadas da era moderna. Não tenho dúvida principalmente pelo calor humano, amabilidade, educação e a solidariedade do povo brasileiro.

TRIFATTO – Mensagem final aos torcedores.

José Roberto – É muito importante a participação da nossa torcida para toda a delegação que vai representar o Brasil em várias modalidades de esporte. Essa participação vai ser transformada em um legado que para mim será o mais importante de todos, o que os Jogos Olímpicos vão deixar como espírito e sonhos para o futuro das nossas crianças e adolescentes que um dia poderão ser atletas olímpicos e com isso transformar o Brasil em uma potência olímpica no futuro.

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