A cura ao alcance das mãos

Seja em qual for a situação, é comum recorrer aos céus para um pedido de socorro quando bate a necessidade, o desespero, ou até para rir de algum acontecimento. O “ai, meu Deus” é praticamente uma figura de linguagem, mesmo para os ateus. Além dos remédios para a cura do corpo, sempre se recorreu às terapias alternativas como uma forma de sanar os males da alma e do espírito. A ciência não ignorou a existência do poder da cura pela fé e estudou o assunto, confirmando que há poderes humanos que o próprio homem desconhece.

por DANIELE RICCI

 

O universo é imensurável e possui mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia, como já disse o poeta Thiago de Mello. Mas a busca da cura a todos os males não se restringe a medicamentos e crenças religiosas. Há quem a encontre em elementos da natureza. Terapias, orações, benzimentos, rezas, meditações, santos, cores, crenças e todo tipo de positividade capaz de reforçar o poder da fé ou apenas tirar da humanidade a sensação de onipotência em determinadas situações podem ser bemvindos. São longos e bifurcados os caminhos. Como dizem, fé demais não faz mal a ninguém e nem costuma falhar. Uma dessas garantias vem, inicialmente, dos povos antigos, que davam a importância de uma divindade a cada dia da semana, com direito a oferendas especiais e respeito à data para tomar certas decisões. Cada dia tem seu regente, sua cor, uma flor e um aroma, e a consagração de cada um deles conferia força, paciência e felicidade às pessoas, mesmo em tempos mais difíceis, gerando, por consequência, mais saúde. O fato é que a fé pode ser grande aliada da saúde, e é a ciência quem afirma isso. Um estudo realizado pelas docentes Valdelene Nunes de Andrade Pereira e Bergta Lúcia Pinheiro Klüppel, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), analisou a influência da religiosidade na saúde de 139 indivíduos hipertensos, acompanhados em uma unidade do Programa Saúde da Família de Pedras de Fogo (PB). Distribuídos em dois grupos de acordo com a frequência em serviços religiosos, notou-se que o grupo mais solene apresentou melhor evolução quanto aos sintomas clínicos. Relatos apresentados levaram à conclusão de que a religiosidade é benéfica para a saúde geral das pessoas, podendo ser usada como ferramenta terapêutica complementar, inclusive na abordagem em saúde mental. Outro levantamento, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP) com 12 voluntários, mostrou que os que seguiam uma religião apresentavam um sistema imunológico mais resistente, comprovando que as pessoas podem ser curadas pelo poder da crença. Já a Universidade de Toronto, no Canadá, provou que pacientes religiosos ficam menos aflitos com doenças.

Buscar conhecimento é ampliar horizontes

Mas as crenças religiosas não são as únicas que reforçam nas pessoas o poder de cura. Muito comuns no Oriente há milênios, as terapias alternativas chegam a ganhar quase um status religioso no Ocidente, tamanha é a quantidade de pessoas que as seguem e estudam. No Brasil, país de sincretismos, há 11 anos o governo resolveu apoiar com recursos federais os serviços de saúde que oferecerem tratamentos classificados como práticas integrativas e complementares (PICs), entendendo que tais práticas e terapias alternativas valorizam o conhecimento tradicional como forma de integrar pacientes e complementar tratamentos, além de dar uma atenção mais humanizada e tratar da saúde mais integralmente. Eram cinco práticas inicialmente – fitoterapia, acupuntura, homeopatia, medicina antroposófica e termalismo —, mas este ano a oferta cresceu para 18 recursos terapêuticos oferecidos no Sistema Único de Saúde (SUS). Cada município ou estado oferece-os de acordo com a disponibilidade de profissionais capacitados e mediante agendamento médico. Entre as práticas e terapias mais recentemente aprovadas estão a acupuntura, alimentação natural, fitoterapia, homeopatia, dança sênior, Hatha Yoga, Lian Gong, Shantala, Tai Chi Chuan e terapia comunitária. Entre as novidades, foram incluídas este ano sete novas atividades: sessão de arteterapia, meditação, musicoterapia, tratamento naturopático, osteopático, quiroprático e Reiki. Maria Júlia Guiran Pestana, reikiana e terapeuta há 11 anos, comemora essa inclusão. Em sua opinião, é importante essa consciência, levando em conta como as pessoas se surpreendem ao sentir os bons efeitos dessas terapias. “Já ouvi muitos relatos de melhora a partir da aplicação do Reiki, mas só quem recebe pode conhecer as maravilhas. As terapias são uma força maior para enfrentar obstáculos”, afirma.

Quando a energia se transforma em cura

Consideremos que, assim como a pessoa que recebe os benefícios dessas terapias alternativas, a que trabalha com elas também tem seus defeitos e problemas, bondades e maldades. O que, então, leva as pessoas a acreditar que o outro ser humano, igualmente imperfeito, tem o poder de promover um alívio? A resposta está justamente na fé. A maioria das terapias alternativas está relacionada a fluxos energéticos que, para muitos, servem de complemento a crenças religiosas, embora nada tenham que ver com religião. Há, durante a aplicação, uma intenção de cura de ambas as partes – terapeuta e receptor –, que pode ou não acontecer, de acordo com a abertura de quem recebe. O terapeuta se coloca como um canal de cura junto a uma energia que acredita ser superior e, com um reforço da fé, acaba intensificando a energia de cura. “Todo mundo já sentiu a diferença ao entrar em ambientes bons ou ruins para si. Isso é uma troca de energia”, disse a especialista. Como reikiana, Maria Júlia defende que o terapeuta é apenas um canal e não a energia propriamente dita. “Quando nos doamos, colocamo-nos na posição do outro, com o sentimento de nos livrarmos da mesma dor, pois estamos todos ligados”, declara.

A fé que move montanhas

O fato é que a fé pode ser uma grande aliada da saúde. Acreditar que está bem ou irá ficar influencia na imunidade, melhora a resposta a processos de quimioterapia ou radioterapia, por exemplo, e ainda pode auxiliar no combate a depressão, ansiedade e problemas de sono. O renomado Instituto Dante Pazzanese (SP) desenvolveu um trabalho com quase 250 artigos de todo o mundo para comprovar essa tese e concluiu que a prática regular de atividades religiosas, independentemente de quais sejam, pode chegar a reduzir em 30% o risco de morte.

A resposta é simples: ter uma religião promove bem-estar geral, especialmente psicológico, gerando menos propensão a pensamentos e comportamentos suicidas, ajudando a diminuir o consumo de álcool e drogas e incentivando hábitos saudáveis. A religião contribui ainda para reduzir a carga viral em pacientes com HIV, além de reduzir mortes por AVC e problemas cardíacos, de acordo com a pesquisa. O oncologista Fernando Maluf (SP) esclarece que tanto o ato de rezar como o de meditar sinalizam um exercício cerebral importante, que direciona o pensamento à confiança, à paz e ao conforto. Por conta disso, segundo ele, pacientes que recebem orações e pensamentos positivos, mesmo sem saber, têm melhora no quadro de doenças em comparação aos que não recebem.

Força para segurar a barra

Jornalista, pesquisadora e vivenciadora de terapias e medicinas alternativas há mais de 10 anos, Daniela Ferreira Vieira, autora do blog “Caminhos da Cura”, afirma que a concepção de fé está relacionada ao que faz sentido para cada pessoa. “Para mim, fé é acreditar naquilo que não conseguimos entender com nossa mente racional, em uma inteligência suprema, que trabalha sempre a nosso favor”, afirma. Em geral, são nos momentos difíceis, de limitações que intensificamos nossa necessidade de reforçar a fé. Para Daniela, isso ocorre porque as pessoas percebem, nessas situações, que não têm controle sobre a vida e, no momento em que já parece não se ter chance, “quando o ego perde a batalha”, é que as pessoas conseguem se entregar mais puramente a essa força motora. “Quando você pede, é porque acredita que pode ser atendido. E se você confia, assim será. É dito que, quando oramos, falamos com Deus. Quando meditamos, Deus fala conosco. Por isso, percebo que a meditação tem muito poder também, pois nos deixa mais tranquilos, em harmonia com o fluxo natural da vida, exigindo menos esforço. Orar, meditar e agir com confiança é uma bela combinação”, conclui.

Ciência e crença

Se a cura dos males do corpo e da alma pode ocorrer pela força do poder do pensamento positivo, qual é o papel da ciência e quais são seus infinitos esforços para o bem-estar? Na verdade, uma não convive nem sobrevive sem a outra. Fé e ciência são inseparáveis na criação e manutenção da humanidade. Na opinião de Daniela, a ciência é muito importante, mas não é a verdade absoluta. “Para os cientistas, a Terra já foi plana, lembra? A fé cega também é perniciosa.” Quando surgir uma enfermidade no corpo, o ideal é procurar especialistas – médicos e psicólogos – e, já que a própria ciência defende que as doenças estão, em geral, relacionadas a enfermidades mentais e espirituais, buscar alternativas, disponíveis para ser conhecidas e apreciadas em nosso bem. Trabalhar em nosso próprio benefício é o verdadeiro caminho da cura, pois a saúde deve ser o estado natural do ser humano. Medicina, tecnologia e fé são ferramentas para ser utilizadas a nosso favor. Há uma verdade exata em tudo isso: se é bom, só pode fazer bem. •

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