José Mayer: A arte de ser irresistível

Aos 66 anos, dono de uma carreira singular na teledramaturgia brasileira, José Mayer é exemplo a ser seguido. Exemplo do menino que sonhou em ser ator e persistiu no sonho. Galã? Isso é só um detalhe.

A luz do estúdio se acende, a claquete se fecha. Lançando os olhos para cima, como quem consegue enxergar uma memória distante, José Mayer lembra-se de um momento doloroso de sua carreira. A voz, conhecida arma de sedução em tantas novelas, se embarga um pouco e seu rosto adquire uma feição quase infantil da criança que teve um sonho de vitrine de loja de brinquedos negado. O ano era 1984 e a TV Globo, sua casa, preparava-se para adaptar para a televisão o clássico Grande Sertão: Veredas, do gênio Guimarães Rosa. “O maior sonho da minha vida era fazer o Riobaldo, papel que foi dado ao meu querido Tony Ramos. Mas eu, mineiro, fascinado e inspirado sempre por Guimarães Rosa tinha comigo que um dia eu seria o Riobaldo na televisão”. O que José Mayer passa a narrar, com certa tensão na voz, é mesmo de doer. “Vinte anos depois estou em um evento e encontro o Maestro Julio Medaglia, que fez a trilha sonora da minissérie. Conversamos bastante e nessa conversa ele me disse que entramos na Globo na mesma época. E me fez uma revelação que me deixou chateado: ‘O Walter Jorge Durst, que adaptou o Grande Sertão, queria você para ser o Riobaldo, mas o Walter (Avancini) não quis, dizendo que você tinha o olho muito pequeno’ ”.

Zé Mayer para, baixa os olhos, controla as lembranças e termina: “Como é a vida… Vinte anos depois fui saber disso”, e sorri em seu irresistível magnetismo que faz suspirar mulheres de todo o país a cada novo papel. José Mayer Drumond, 66 anos, nasceu em São Domingos do Prata, Minas Gerais. Também ficou popularmente conhecido na Internet como “Zé ‘Pegador’ Mayer”, devido ao sucesso dos seus personagens com as mulheres, quase sempre tendo um envolvimento amoroso com as principais personagens. O ator reúne em seu currículo múltiplas funções: produtor, diretor, ator e cenógrafo. O início da carreira foi uma participação na primeira temporada da série Carga Pesada. Mas o que o consagrou e abriu-lhe as portas foi seu primeiro grande papel, em “Bandidos da Falange”, na TV Globo. Sobre a fama de “galã-garanhão-pegador-etc”, Zé os atribui às seis novelas do autor  Manoel Carlos, das quais participou. “Acho que são os personagens. Eu fiz tantos personagens interessantes, sedutores, com essa função romântica. Eu tenho circunstâncias que me favorecem muito, e essa fama acaba vazando”, brinca.

Aos 10 anos, num dia qualquer que já se vai longe na memória, a família de José Mayer mudou-se para a cidade mineira de Congonhas do Campo. Foi o momento em que sua vida virou de cabeça para baixo. O palco da excelência celestial das obras de Aleijadinho também foi onde Zé Mayer entrou para o seminário redentorista. “Ali recebi uma formação holística, onde conheci a arte. Foram sete anos e meio estudando, estudando, fingindo que ia ser padre, mas na verdade um ator intramuros”. Em Belo Horizonte, já adolescente, foi estudar Letras e Filosofia e entrou para o teatro. Foi aí que começou tudo, em 1968. “Eu era um menino meio estranho àquela família.” Talvez seu grande desempenho como ator de primeira viagem tenha sido representar para os pais e padres do lugar que ia se tornar também padre. “Ali já exibia meus dotes de ator”, brinca. “Suportei um exílio de mais de sete anos. Era um fingimento que durou muito tempo”, contou em uma recente entrevista ao programa Grandes Atores, no canal Viva. Atitude masculina por definição: assim, Zé Mayer completa os porquês de ser galã. Masculinidade, né? “É preciso ser  masculino. É preciso exalar masculinidade à primeira vista. Talvez tenham de mim essa primeira  impressão. O meu movimento, meu jeito de olhar, minha fala, meu tom de voz, talvez inspirem… É a atitude masculina, basicamente. E o exercício da minha profissão, que me deu uma certa experiência, um certo, digamos, charme, no sentido de capacidade de tornar interessante um trabalho que estou apresentando. Isso é domínio técnico. Talvez o charme venha do ator, não sei se vem do homem. Será?”, disse em outra ocasião.

Dono de uma carreira de mais de 45 anos, ele avalia a sua trajetória profissional, e parece ter levado a sério o sonho de menino. “O que mais me agrada na história da  minha carreira é o fato de ter sido fiel ao meu sonho de menino, que sempre quis ser ator.” Quase nunca a vida é fácil. Ou melhor, nunca. Mas o que seria das telenovelas, dos palcos de teatro, das telonas de cinema se alguém do quilate de José Mayer tivesse cedido aos apelos da sua necessidade mais momentânea?

Foram muitos papeis neste anos todos. Muitos inesquecíveis do público. Entre eles, o da minissérie De Corpo e Alma, em 1992. O ator interpretou Caíque, e não mediu esforços para viver o personagem: mudou-se para o local das gravações, em Monte Santo, no interior da Bahia, e lá morou durante um mês, num casebre, vivendo de maneira simples e cuidando do burro com o qual contracenaria. A minissérie demorou a ser exibida. Quando foi ao ar, ele também interpretava Fernando Flores, na novela Fera Radical (1988). Prêmios foram muitos em sua carreira. Em 1989, por exemplo, enquanto interpretava o galã rude Osnar, em Tieta (pelo qual recebeu o Troféu  Imprensa de Melhor Ator), nos  palcos recebia o Mambembe pela peça Perversidade Sexual em Chicago, de David Mamet. Nos anos 90, teve atuação destacada em outra minissérie: Agosto, baseada na obra de Rubem Fonseca. Mas é nos anos 2000 que, além de consagrado como ator, consolida o status de galã sob a pena de Manoel Carlos. Em Laços de Família (2000), foi o impetuoso Pedro, um criador de cavalos. Na minissérie Presença de Anita (2001), o escritor Fernando, que vivia um caso amoroso com a jovem interpretada por Mel Lisboa. Em Mulheres Apaixonadas (2002), interpretou o médico mulherengo César. Em Páginas da Vida (2006), Maneco escreveu para o ator o personagem Gregório, ou Greg, um charmoso empresário, par romântico da personagem da atriz Natália do Vale. No ano seguinte, em Viver a Vida, interpretou Marcos, um Don Juan casado com a bela modelo Helena, interpretada por Taís Araújo.

Em 2013, o ator encarnou Zico Rosado no remake de Saramandaia. Em 2014, foi Claudio Bolgari em Império, fomentando a discussão em todo o país sobre o amor homossexual. Feliz por ter realizado e persistido no seu sonho de menino, Zé Mayer sempre que pode fala que ainda há muito a fazer nesta vida.

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