Meg é um show!

Um pseudônimo que ganhou força e escreveu seu nome na história do jornalismo e colunismo social de Piracicaba. Maria Eliza Guerra era um nome muito comprido e virou Meg, mignon no tipo físico, mas grande em
personalidade e representatividade.

O termo colunismo social em Piracicaba tem um divisor de águas que atende por três letras: MEG. São as iniciais de Maria Eliza Guerra, essa mineirinha do tipo mignon, de cabelos louros, voz e sorriso marcantes, que era presença VIP – e ainda é! – nas melhores e mais concorridas festas da high-society piracicabana, desde a década de 1970. Suas colunas nos jornais da cidade traziam os principais nomes da sociedade e da economia, mas não se restringiam à publicação de fotos com legendas e quem aparecia, era selecionado. O diferencial da página era o tino jornalístico, a criticidade, principalmente em relação à política, em artigos escritos pela própria Meg e que se misturavam às coberturas dos eventos, trazendo, mais do que um visual bonito, informação de qualidade e com opinião.
Esse olhar apurado, inteligente, somado à elegância, fez de Meg um ícone do colunismo social, reconhecida por profissionais da comunicação por todo o país.

A high-society piracicabana das décadas de 1970 e 1980 a recebia como convidada VIP em festas homéricas, nas mansões ricamente decoradas das famílias mais abastadas ou nos clubes sociais. A participação feminina era um espetáculo à parte, com vestidos e calçados deslumbrantes, que tinham em Ivone Maluf e sua Maison D’or uma referência à beleza predominante na época. O apelido minúsculo, porém forte de Meg foi dado pelo olho clínico do jornalista e médico Fortunato Losso Netto, diretor do jornal onde trabalhava na época, e identificou na jovem socialite uma profissional do colunismo.

Os tempos eram diferentes no jornalismo, menos confortáveis, porém mais excitantes. Meg contava com a parceria de fotógrafos, como os amigos Henrique Spavieri e Bolly Vieira, para as coberturas dos eventos. Como transporte, eles usavam a perua cinza da colunista, que ganhou o apelido de Pelancas. “Era muito divertido. Eu procurava aprender e manter a alegria em todas as situações. Minha relação com os fotógrafos era maravilhosa, éramos parceiros. Bons tempos”, relembra. Quando ia sozinha, Meg pendurava a máquina fotográfica e saía sacando as fotos e fazendo as legendas, enquanto interagia com as pessoas e também se divertia. Algumas vezes, ela tinha a companhia do parceiro de quase 50 anos, o professor na área da odontologia Andrés Tumang, que agora divide com ela a alegria de ser os avós de Thiago, de apenas 4 anos.
Mas de vovó, essa mineira só tem o título e o amor ao pequeno. Sua energia e a aparência são de adolescente, uma alegria igual à dos tempos de menina nascida em Machado e criada na rica sociedade de Uberaba, onde aprontava como um moleque.

Sempre sapeca

Os freis dominicanos da Igreja de São Domingos, na Uberaba da época, que o digam! Dar a ela o tão desejado título de anjinho de procissão, nem pensar. Afinal, sabiam que a pequena moradora da frente da igreja era quem arrancava
as flores do jardim dedicado à Nossa Senhora de Fátima.
Por ser o terror da vizinhança, os religiosos quiseram impedi-la de fazer a primeira comunhão. Mas um nobre senhor espírita, muito respeitado em Uberaba, interveio em favor da menina. Era Chico Xavier, ainda desconhecido na época. Meg conta que na humilde casa do religioso era frequente a distribuição de comida para a população carente. “Faziam filas aos domingos e o próprio Chico colocava arroz, feijão e outros mantimentos nas sacolas. A comida era doada por dona Olinda Arantes Cunha, uma mulher muito rica lá de Uberaba”, recorda.

De tanto aprontar, a pequena Maria Eliza foi matriculada pelos pais, aos 7 anos de idade, em um internato em Belo Horizonte. Transferida depois para Salvador (BA), para onde a família se mudou, ficou até a adolescência, até vir para Piracicaba. “Eu aprontava todas”, diverte-se.
Meg lembra que contava com o carinho de um bom amigo, um jovem que se tornaria celebridade anos depois. “Ele era muito bonzinho e hoje escreve novelas na Globo”, fala, revelando o nome do escritor Walcyr Carrasco.

Sobre a mesa, pão de queijo, retratos e histórias

Meg é dessas pessoas com quem se passa horas muito agradáveis. Para acompanhar a boa conversa com a TRIFATTO, ela pede a Isabel, sua ajudante há 30 anos, que sirva o típico café e pão de queijo. Conta histórias dos tempos em que atuava como relaçõespúblicas no Grande Hotel Águas de São Pedro e era acordada no meio da noite pelo gerente para fazer parceria no jogo de buraco com as atrizes Nair Bello e Lolita Rodrigues. Em sua casa, de estilo rústico, decorada com belas almofadas, peças de família e obras de arte, dezenas de porta-retratos, de diferentes estilos, ajeitados sobre as mesas laterais, eternizam parte dos tempos de colunismo social, em fotografias com amigos, colegas de trabalho e gente de destaque nacional.

Entre grandes personalidades

Meg trabalhou por um tempo no extinto O Diário, ao lado de jornalistas como Cecílio Elias Netto, Mario Evangelista, Mário Terra e José Maria Ferreira, com quem diz ter aprendido muito. “O Diário tinha a coluna do professor Mauro Vianna, o melhor de todos os colunistas. Mário Terra, meu grande amigo, também brilhava no Diário com a coluna Quem é Quem e suas grandes festas.” Maria Eliza chegou a ter um programa na rádio Difusora, que traduzia sua espontaneidade e dá título a essa reportagem: Meg é um Show! Era divertida, crítica e comentava sobre os fatos da cidade e a política geral, assunto que despertava seu interesse.

Como jornalista, chegou a acompanhar políticos de grande representatividade, como Paulo Maluf, a quem tece elogios. “Não sou malufista, mas falo do homem, um verdadeiro gentleman, educado e inteligentíssimo, tocava piano muito bem. Muitos outros políticos, como o (presidente João) Figueiredo e o Jânio Quadros, vinham a festas em Piracicaba. Os Dedini recebiam muito bem, de presidentes a artistas. Para o Jânio, foi oferecido um jantar com mil talheres de prata, coisa mais maravilhosa.”

Saudades ela traduz como boas lembranças e vida que segue. Deixou de ser colunista para voltar a ser colunável. Foram mais de 30 anos plenamente dedicados às boas coberturas sociais. Sua primeira coluna chamava-se Observatório, mas ela nem sequer lembra quando era. Não é de se ater a datas.
Resolveu parar e acha que o fez na hora certa. Acredita que, hoje, com a insegurança e as redes sociais, tudo se transformou, as festas ficaram restritas a nichos sociais, com exceção de casamentos e formaturas. Não existe mais a mesma elegância dos tempos dourados, o glamour que marcava esses encontros e o colunismo perdeu espaço para a cobrança na publicação e as fotos instantâneas, feitas com o celular e postadas imediatamente. “Era muito bom, mas eu acho ótimo também o que está acontecendo. Eu gosto de tecnologia e aprovo mudanças. A vida é assim, não é, meu bem?!”

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