Como o piracicabano mudou nos últimos 10 anos?

Mudanças estruturais, ampliação da população e abertura de novas frentes de trabalho, porém com a manutenção de sua cultura e história são detalhes que fazem de Piracicaba uma cidade acolhedora para a maioria. Cada vez mais pessoas se somam à maneira piracicabana de ser. É a história do “quem bebe dessa água não vai mais embora”. Mas será que as transformações pelas quais o município vem passando nos últimos dez anos influenciaram também no comportamento da população?

 

Que o mundo é um caminho relativamente curto, todo mundo já sabe. O processo tecnológico e a globalização encurtaram distâncias e aproximaram culturas, possibilitando incorporar influências entre um povo e outro. Por sorte, talvez, há os dedicados a manter vivas determinadas culturas seculares que identificam cada localidade. São fatores como gastronomia, vestimentas, linguagem, danças e outras culturas típicas que fazem que um povo deixe sua marca positiva na humanidade. Com Piracicaba não é diferente, e quem a conhece logo aponta o sotaque acaipirado como aliado de sua identidade.

Porém, a cidade passou por diversas transformações que ajudaram a modernizar o modo de vida local. A questão é: será que essas mudanças influenciaram no comportamento do povo piracicabano? O município e seus 391,5 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), recebem constantemente uma população flutuante, formada por estudantes e profissionais que buscam trabalho, renda e desenvolvimento cultural. Não à toa, Piracicaba desponta em pesquisa atual como a segunda melhor do país, num comparativo entre as 100 maiores cidades do Brasil, em gestão municipal. Independentemente de levantamentos, são visíveis as transformações estruturais pelas quais Piracicaba passou nos últimos dez anos.

O estudo que classificou o ranking nacional pela avaliação do desempenho das grandes cidades entre 2005 e 2015 foi realizado pela consultoria Macroplan e analisou as áreas de educação e cultura, segurança, saúde, saneamento e sustentabilidade. Para se ter uma ideia da influência das mudanças ocorridas nos últimos anos em Piracicaba, em 2005 o município ocupava a 14ª posição e hoje está atrás apenas de Maringá (PR).

O que a faz muito boa

Para o piracicabano, bairrista no melhor sentido da palavra, a cidade mantém a simpatia e o charme e, apesar do trânsito cada vez mais complicado – outro índice aponta quase dois carros por habitante –, há detalhes que a tornam o “mió lugar desse mundo”. Desde o sotaque, que ganhou apelido carinhoso de caipiracicabano, o modo de vida do povo de Piracicaba desliza entre o interiorano e o metropolitano: os belos e históricos Engenho Central e Monte Alegre, o verde de parques como o da Rua do Porto, a acentuada beleza contemplativa dos prédios e campos da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), os ícones centenários, como o Esporte Clube XV de Novembro, seus antigos colégios, as universidades, as sociedades comunitárias que reúnem descendentes de italianos, espanhóis, árabes, portugueses, entre outras nacionalidades, e o rio Piracicaba, a grande veia vital da cidade.
Especialistas comportamentais são divergentes em relação à mudança de comportamento social, mas confluem no sentido de que o piracicabano é um povo bom e acolhedor. “É um povo de uma simplicidade alegre, que continua fiel aos costumes antigos sem ignorar os novos e que aos poucos foi se descortinando com o advento do progresso”, ressaltou a psicanalista Elaine de Lemos. Para ela, Piracicaba alcançou considerável progresso na última década e a modernidade chegou alterando o compor comportamento da população como numa reação normal a toda renovação ocorrida num sistema dinâmico. “A cidade foi alvo de muitas iniciativas que deram ao cidadão piracicabano atento motivação para avançar e crescer”, comenta Elaine. Entre as mudanças contínuas, a questão cultural pode ser uma das mais relevantes na opinião da psicóloga e coach Alessandra Zandoná, por conta da chegada de novas empresas ao município, da contribuição da tecnologia para ampliar as fronteiras culturais e do crescimento que por vezes a leva à característica de uma metrópole, com seus desafios e facilidades. “As novas gerações já vivem num ambiente de cidade-polo regional e com menos aparência de interior. A identidade piracicabana pode ter sido alterada pela influência de outras culturas, sem atribuição de valor, porém, no mesmo contexto, reforça-se a questão do pertencimento a um grupo, uma comunidade com possibilidade de marcar a origem, o território, e isso se reflete na constituição da subjetividade do sujeito, como a essência caipira, o orgulho do XV, a gastronomia local e a Esalq”, afirma Alessandra.

Quem levou Piracicaba ao ranking como a segunda melhor cidade para se viver foram os piracicabanos, de acordo com a psicanalista Liége Lise. “Espírito aberto às mudanças, empreendedorismo aliado ao cultivo do patrimônio cultural, hospitalidade e solidariedade são marcas do estilo das pessoas que fazem o dia a dia dessa cidade”, diz a profissional.

O sotaque caipiracicabano

Na fala, bem se nota que Liége não é, como dizem, “minhoca da terrinha”. Gaúcha que aqui habita e trabalha há mais de 20 anos, a profissional observa que o piracicabano defende e honra seu sotaque interiorano como patrimônio linguístico imaterial. Para ela, a subjetividade de uma pessoa está ligada aos contornos da cultura onde habita e, ao tempo, à geografia e às relações humanas que se constroem nesse espaço. “Piracicaba é o lugar onde o peixe para e o seu povo em constante movimento cultiva seu rio, sua natureza e seus laços de amizade. A cidade acolhe novas indústrias, negócios e eventos, contudo não esquece suas raízes e sua identidade linguística. Onde quer que esteja, o piracicabano leva consigo memórias desse lugar cheio de flores e encantos. Posso dizer: Pira é trilegal”, brinca. Elaine de Lemos acredita que o piracicabano será sempre lembrado pelo seu sotaque. Mas, como toda origem, não se pode esquecer de que se trata do cerne cultural específico já dado, de saída, pela culinária, pelas artes, dança, música e pelo vocabulário. “Acabou sendo marca registrada, mas é muito claro que a ampliação da cidade, com a vinda de empresas e pessoas de fora, acarretou certa descaracterização.”

Uma recordação de juventude, para o professor Walter Vallerini, é o fato de ser apontado como caipiracicabano em função do sotaque. “Talvez por um tempo tenha me incomodado, mas, quando passamos a sentir que é uma característica nossa, não incomoda mais. E o carioquês? E o paulistano? Então, eu vejo como uma forma muito sadia de uma representação folclórica de nossa cidade. Aliás, essa cultura deveria ser mais bem esclarecida nas escolas para que não se permita uma interpretação negativa de nossa caracterização. Se é nossa, e se a gente gosta, valorize”, ressalta. Alessandra Zandoná destaca a importância da manutenção da identidade linguística. Em sua maioria, o piracicabano é muito ligado à terra natal e o rio tem um simbolismo muito forte nesse sentido, interferindo inclusive no humor da população. Manter a ligação com as raízes é uma característica importante e que pesa favoravelmente quando há possibilidade de escolha de uma oportunidade de trabalho na cidade em vez de outro local, segundo ela.

A mudança começa em cada um

Coordenador do Instituto Sociedade do Ser, criado há 20 anos com a finalidade de promover mudanças comportamentais por meio de técnicas específicas, Vallerini afirma notar que o piracicabano é um povo evoluído, que se comporta bem dentro da cultura contemporânea e busca o equilíbrio emocional. “É esse equilíbrio que fará diferença no mundo nas próximas décadas. Costumo dizer que o mundo aprendeu a fazer as coisas, mas sempre há alguém que ainda faz melhor, então precisamos mudar para melhor e, quanto mais mudarmos, melhor será.” Ele aponta a necessidade de doutrinar a inteligência emocional como oportunidade de crescimento, para que não nos tornemos nossos próprios adversários. “Na essência, o ser humano é o mesmo; ele muda características de ações, influenciado pelo meio ambiente, pela educação, até talvez pela carga genética, mas não muda a essência.”

Piracicaba não é diferente. Os piracicabanos são tão bons quanto qualquer outro povo, mas são exigentes, buscam sabedoria e qualidade. Vallerini cita uma frase socrática para validar suas palavras: qualidade começa em mim. “Vejo isso no povo piracicabano. Quem não conhece qualidade não sabe o que é, não reconhece quando encontra, e Piracicaba oferece uma vida de qualidade para seu povo. Nossa cidade é maravilhosa”, finaliza.

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