Vai. E se der medo, vai com medo mesmo

Ser feliz requer competência. É necessário abandonar certos hábitos e olhar para dentro para descobrir o que realmente nos agrada e traz felicidade. A forma como a sensação acontece é extremamente pessoal, porém felicidade é um sentimento transferível. Para uns, resume-se a “um amor e uma cabana”; para outros, consiste na conquista de bens materiais que proporcionam conforto e bem-estar. A saúde e realização dos filhos, o reconhecimento profissional, uma boa relação com amigos, conhecer lugares por meio de viagens extraordinárias; enfim, seja como for, ser feliz requer também coragem, confiança, capacidade de enfrentar os medos e seguir em frente.

 Combater pensamentos negativos é o primeiro passo para aceitar as mudanças e ser feliz. Não se pode seguir em frente e em paz deixando para trás coisas mal resolvidas. É preciso, antes de tudo, identificar o que nos faz infelizes. Reclamar – já ouviu dizer isso? – é uma das limitações que nos prendem a coisas, por isso é preciso desapegar, perdoar e aceitar que nem tudo está ao nosso alcance para resolvermos. O fato é que felicidade é uma poção que se toma para se apossar da sensação de que o que vivenciaremos valerá a pena. Seja em doses homeopáticas, lentamente – como se prova um bom vinho, se degusta um chocolate – ou de maneira intensa, como as altas gargalhadas com os amigos e os momentos de alegria e intimidade com os filhos, desses que nos deixam leves e libertam todo o organismo. Há épocas na vida em que parece que estamos dispostos a mudanças, mas nem sempre temos coragem de assumir nossa transformação. Mas enfrentar os medos até eliminálos já é um ato de muita coragem e que traz, por si, muita felicidade. Medo de enfrentar o fim de um relacionamento, medo de dar adeus aos filhos quando crescem e precisam seguir a própria vida, medo de mudar de emprego, de estilo, de recomeçar. Somos feitos de momentos e a hora da mudança é justamente aquela de rever, reaproveitar ou reciclar. O que mais se espera é que a gente tenha sempre bons desejos de evolução para nós mesmos, que se estendam dessa força interior para que ela aja de fato e nos permita transformar as coisas. A essência de toda criação é a excelência do bem, mas em certos momentos algo muda, sai da rota e migra para fora da proteção natural. É quando isso acontece que as pessoas se perdem da verdade que faz delas seres inigualáveis. Muita gente tem medo de amar, de se relacionar ou mesmo de terminar um relacionamento que não está bom. É o medo da dor de amor. A pessoa que a sente faz isso com tanta eficiência que não precisa de mais nada. A dor de amor nos transforma em maus pacientes, com quem não adianta gastar reza.

 Enfrentar os medos até eliminá-los já é um ato de muita coragem e que traz, por si, muita felicidade. Somos feitos de momentos e a hora da mudança é justamente aquela de rever, reaproveitar ou reciclar.”

aos outros e que se tornem reais. É possível querer e fazer acontecer, a vida se constrói à medida que damos a nós o poder das nossas oportunidades. Mudar requer um poder quase divino, é mais do que essa coisa humana do querer, “é um querer mais que bemquerer”, como na poesia de Renato Russo. Temos vivenciado muitos pequenos milagres todos os dias, mas não nos damos conta disso. Ver e enxergar são coisas distintas. Ver e sentir são ainda mais. Há coisas simples que tocam nosso coração, há situações das quais apenas participamos como observadores e, mesmo assim, nos tocam. Somos feitos de um poder que é dado a nós com o propósito primeiro de reconhecimento: é preciso tomar partido da existência Mas amar é muito bom e de todas as formas. É um exercício de desapego quando a gente decide se dedicar a amar o que estiver pela frente a cada piscar de olhos. A perfeição está nisto: em amar simplesmente, viver naturalmente. O receio de amar, de recomeçar talvez seja porque essas sensações nos tornam seres infantis, mas é preciso lembrar que a infância é o tempo das descobertas deliciosas que se perpetuam por toda a vida, mesmo que não se dê a elas o devido valor. Por isso, culpamos a rotina, as obrigações que aceitamos na vida, muitas vezes sem realmente desejar, e que recebem um peso tão grande quando, até por puro prazer, deveriam ser mais leves.

Se imaginarmos que parte de nós foi cuidadosamente selecionada para compor esse ser humano único, extraordinário, talvez teremos mais facilidade de compreender que temos o direito a mudanças e, assim, aceitaremos melhor que elas aconteçam, pois somos feitos de desejos. Mudar gera medo, mas enfrentá-lo é parte do viver. Se fecharmos os olhos para recordar as boas experiências, podemos identificar que, para que todas elas acontecessem, foi necessário impor um ritmo novo, uma transformação nem sempre fácil. E, se refletirmos, todos os dias estamos predispostos a enfrentar mudanças, pois temos de fazer escolhas constantemente. Atualmente, uma das mudanças que mais provocam arrepios é a de trabalho, afinal, com a crise e a necessidade de colocarmos a criatividade em prática para enfrentála, nem sempre temos a oportunidade de permanecer no emprego. É fato que o trabalho movimenta o corpo, ilumina a mente, é importante para a sobriedade e a saúde. Mas em cada trabalho novo temos a oportunidade de conhecer pessoas novas, com boas experiências, e sempre se ganha em aprendizado. Além do fato de começarmos uma nova rotina. Aprender é tudo que de melhor a vida nos oferece. A gente pode e tem todo o direito de cair e levantar, sem dar ouvidos a comentários de quem não sabe nada sobre nossa vida, o que e como sentimos. A maioria das pessoas, em geral, acorda cedo para buscar sustento, sobrevive em um mundo de dúvidas, volta para casa cansada, mas não menos íntegra. Viver naturalmente, sem muitos rumores, deixando as coisas acontecerem, é um passo importante do qual a gente às vezes se esquece, o que nos faz colocar empecilhos à felicidade, escolhendo demais, preocupando-se muito mais do que precisa. Se confiarmos no poder da própria sabedoria, encontraremos a chance das realizações excepcionalmente maravilhosas, a todo momento. Para isso, precisamos usar mais nossa capacidade de facilitar as coisas. Dentro de um minuto, após enfrentarmos o medo de qualquer mudança, tem um novo “eu” esperando para ser o melhor. Acesse-o, liberte-o, confie. Tem uma grande felicidade esperando para ser absorvida ao abrirmos os olhos diariamente, nos sentirmos vivos e presenteados pela vida com mais um dia de oportunidades. Não vale a pena ter medo de ser feliz. •

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